Eflúvio Telógeno após o Transplante Capilar pela técnica de Extração de Folicular (FUE)

Publicado em

18/08/2023

Eflúvio Telógeno após o Transplante Capilar pela técnica de Extração de Folicular (FUE)
Por Dra. Renata Lages Laughton

NOTA INTRODUTÓRIA
Por Dra. Tatiana Tournieux 

“Nesse número, vamos falar sobre uma intercorrência rara mas que assusta muito, assusta não só o paciente mas como o cirurgião também! 
Só de sabermos que ela existe, nos dá um alento importante, tanto para acalmar nossos corações, como para tranquilizar nossos pacientes! 
Dra. Renata Lages nos presenteia com essa rica descrição de caso, para que o ‘shock loss’ esteja sempre no radar dos cirurgiões da restauração capilar.

Por fim, já antecipo a Conclusão desse importante relato de caso:

Apesar do número crescente de cirurgias de transplante capilar realizadas em todo o mundo, os estudos sobre complicações no pós-operatório ainda são escassos. Considero de extrema importância os relatos de casos como este, pois eles possibilitam não apenas a troca de experiências e o aprendizado técnico, mas também o respaldo jurídico diante dos desfechos inesperados que podem ocorrer em nossa prática cirúrgica.”

RESUMO

O Transplante Capilar (TC) tem sido cada vez mais indicado no tratamento da Alopecia Androgenética. Apesar do crescente número de cirurgias executadas em todo o mundo, existem poucos estudos sobre complicações/intercorrências no pós-operatório. Este artigo discorre sobre um caso de Eflúvio Telógeno (ET) importante em região doadora após o TC, e a maneira como o caso foi conduzido. O objetivo deste estudo é informar e orientar o cirurgião capilar sobre este possível desfecho no pós-operatório.

INTRODUÇÃO

O transplante capilar (TC) é um procedimento estético que vem ganhando popularidade nos últimos anos, principalmente com os avanços das técnicas cirúrgicas, que permitem resultados naturais, elegantes e rápida recuperação no pós-operatório.

 Apesar de ser considerada uma cirurgia segura, complicações podem ocorrer após o TC pelas técnicas FUE ou FUT e isso representa um grande desafio para o cirurgião e para o paciente. Desfechos graves são relativamente incomuns, principalmente em cirurgias bem executadas,vpor equipe bem treinada, e devidamente planejadas.

As complicações podem ser na forma de queixas como dor pós-operatória, coceira, insatisfação com o resultado do procedimento ou complicações cirúrgicas como infecção, deiscência da ferida ou necrose da pele, entre outras.

Conhecer os desfechos mais comuns após a cirurgia de restauração capilar possibilita ao cirurgião uma maior segurança na execução do procedimento e melhor previsibilidade dos resultados. 

RELATO DE CASO

Descrevo o caso de um paciente de 41 anos, submetido ao transplante capilar pela técnica FUE em maio de 2020. Paciente hígido, com quadro clínico e tricoscópico sugestivo de Alopecia Androgenética, sem demais alterações em couro cabeludo durante avaliação pré-operatória.

Na cirurgia foram extraídas 2300 unidades foliculares da região occipital e retroauricular, que foram transplantadas para o scalp médio e vértex



No seguimento fotográfico realizado na primeira semana, o paciente apresentou uma evolução satisfatória, cicatrização adequada dos enxertos e boa recuperação da região doadora
Vinte dias após a cirurgia, o paciente evoluiu com placas alopécicas em região doadora

do couro cabeludo, assintomáticas, com piora progressiva das mesmas nas semanas subsequentes

A tricoscopia das lesões revelou: lesões de aspecto não cicatricial, presença de black and yellow dots, ausência de sinais inflamatórios. Teste da tração negativa para fios anágenos. 

Diante do quadro foi prescrito o uso tópico de Clobetasol gel 0,5% sobre as lesões à noite e laser capilar de baixa potência três vezes por semana. As medicações de uso prévio (Finasterida 1 mg VO ao dia e Minoxidil 2,5 mg VO ao dia) foram mantidas.

Após cerca de três meses o paciente apresentou repilação completa das lesões, sem recidivas do quadro após seguimento por dois anos



DISCUSSÃO

A cirurgia de transplante capilar possui baixo risco, é relativamente segura e tem incidência mínima de complicações. No entanto, é um fato bem aceito que nenhum procedimento da ciência médica existe sem qualquer risco potencial de complicações. A complicação pode ser uma queixa única na forma de dor, prurido, insatisfação com o resultado do procedimento, ou complicação cirúrgica na forma de infecção, deiscência da ferida ou necrose da pele. 

Conhecer estes riscos incrementa nossa prática clínica e possibilita um maior domínio dos potenciais desfechos negativos. Além disso, conseguimos orientar melhor nossos pacientes e dividir com eles a responsabilidade do procedimento escolhido. 

O Eflúvio Telógeno (ET) se refere ao quadro de queda capilar abrupta que pode ocorrer por várias causas, dentre elas a cirurgia de transplante capilar. A queda dos folículos recém transplantados é comum e esperada, e acredita-se que este fato ocorra pela interrupção súbita do aporte nutricional e oxigenação dos folículos no momento em que são extraídos da região doadora. 

 A perda excessiva de cabelo não transplantado existente na área receptora ocorre em média três a quatro semanas após o transplante, e pode ser causado por trauma direto nos folículos pilosos existentes, edema excessivo e trauma vascular durante a criação das incisões. 

A queda dos folículos remanescentes da região doadora, por sua vez, é um evento raro, principalmente em tamanha proporção como no caso relatado. Existem poucos relatos sobre o tema; fatores como a quantidade de unidades foliculares extraídas, traumas durante a cirurgia, e soluções infiltradas durante o procedimento podem influenciar no surgimento deste evento. 

Há que se chamar a atenção para o fato de que retirada excessiva de unidades foliculares na área doadora pode aumentar o risco de eflúvio telógeno na área doadora, além do risco de se exaurir a região no caso de não se fazer uma estimativa correta do potencial de retirada de folículos, algo que varia de paciente para paciente.

REFERÊNCIAS

1. David Perez-Meza, Robert Niedbalski, Complications in Hair Restoration Surgery, Oral and Maxillofacial Surgery Clinics of North America, Volume 21, Issue 1, 2009, Pages 119-148, ISSN 1042-3699.

2. Raymond J. Konior, Complications in Hair-Restoration Surgery, Facial Plastic Surgery Clinics of North America, Volume 21, Issue 3, 2013, Pages 505-520, ISSN 1064-7406.

3. Garg AK, Garg S. Complications of Hair Transplant Procedures-Causes and Management. Indian J Plast Surg. 2021 Dec 31;54(4):477-482. doi: 10.1055/s-0041-1739255. PMID: 34984088; PMCID: PMC8719980.

4. Salanitri S, Gonçalves AJ, Helene A Jr, Lopes FH. Surgical complications in hair transplantation: a series of 533 procedures. Aesthet Surg J. 2009 Jan-Feb;29(1):72-6. doi: 10.1016/j.asj.2008.11.005. PMID: 19233009.

RENATA LAGES LAUGHTON

DERMATOLOGISTA ESPECIALISTA EM TRICOLOGIA E TRANSPLANTE CAPILAR
MEMBRO DA SBD E ABCRC
CONTATO: [email protected]

Fonte:

ABCRC

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