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Artigos de O Folículo · 1 de agosto de 2024 · 9 min de leitura

Hormônios Andrógenos e Alopecia Androgenética

A alopecia androgenética está intimamente relacionada aos hormônios andrógenos, tais como a deidroepiandrosterona (DHEA), o sulfato de deidroepiandrosterona (SDHEA), a androstenediona e a testosterona.

Hormônios Andrógenos e Alopecia Androgenética

 

Dr. Octávio de Oliveira Santos Neto

Endocrinologista e Metabologista com formação e especialização pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Especialista certificado da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia

Endocrinologista do Ambulatório de Gênero do Hospital de Clínicas da Unicamp

 

A alopecia androgenética está intimamente relacionada aos hormônios andrógenos, tais como a deidroepiandrosterona (DHEA), o sulfato de deidroepiandrosterona (SDHEA), a androstenediona e a testosterona. Por serem convertidos em di-hidrotestosterona (DHT), esses hormônios levam a aumento da fase telógena do ciclo capilar e menor duração da fase anágena, levando a uma miniaturização dos fios, diminuição na densidade capilar e potencial atrofia dos folículos capilares.(1, 2)

Desse modo, é imprescindível levantar a suspeita de hiperandrogenismo em pessoas com alopecia, particularmente naquelas do sexo feminino. Mulheres com sinais e sintomas como irregularidade menstrual, amenorreia, acne, hirsutismo e alterações na voz devem ser investigadas quanto ao excesso de hormônios andrógenos.(3) 

 

Investigação etiológica do hiperandrogenismo

A investigação etiológica do excesso de hormônios andrógenos deve incluir uma anamnese detalhada e a dosagem sérica de testosterona, SDHEA, DHEA, androstenediona e 17-OH progesterona. É importante que a coleta desses exames seja na fase folicular do ciclo ovariano, logo nos dias seguintes ao início da menstruação. A paciente também não deve estar em uso de anticoncepcional combinado. Em caso de alterações laboratoriais, o encaminhamento para um endocrinologista pode ser fundamental para a elucidação diagnóstica e tratamento adequado.(3)

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é responsável por até 80% dos casos de hiperandrogenismo, porém se trata de um diagnóstico de exclusão, devendo ser investigadas outras etiologias ovarianas, (ex. tumor de ovário), doenças adrenais (ex. hiperplasia adrenal congênita, tumores adrenais, síndrome de Cushing) e causas exógenas, incluindo o uso de esteroides anabolizantes. Já nos casos de suspeita clínica de síndrome de Cushing (presença de sinais como pletora facial, giba, obesidade centrípeta, estrias violáceas, equimoses, fraqueza proximal, descontrole pressórico e/ou glicêmico), a investigação é mais complexa e deve contar com o auxílio de um endocrinologista desde o início.(3)

 

Uso anabolizantes exógenos

O uso de esteroides anabolizantes para fins estéticos é uma prática crescente que traz riscos significativos para a saúde, incluindo a aceleração ou agravamento da alopecia androgenética. São usadas substâncias derivadas sinteticamente da testosterona, que diferem entre si quanto ao potencial androgênico e ação no folículo capilar. A oxandrolona, nandrolona e estanozolol, por exemplo, têm potencial anabólico muito superior ao androgênico, o que leva a menor efeito deletério sobre a pele e cabelo. Além disso, esteroides como boldenona, estanozolol, fluoximesterona, metenolona, drostanolona, oxandrolona, oximetolona, trembolona, methandienona, nandrolona e turinabol não sofrem conversão significativa da 5?-redutase em DHT, que é o hormônio com maior ação danosa à alopecia. Dessa maneira, o uso de tais derivados acaba sendo menos prejudicial à saúde capilar do que quando são utilizados sais como cipionato, propionato e undecilato de testosterona, que sofrem conversão significativa em DHT pela 5?-redutase.(4, 5) 

É questionável e carecemos de dados na literatura sobre os benefícios dos inibidores da 5?-redutase nos pacientes que fazem uso de esteroides anabolizantes para fins estéticos. Um dos motivos é que aqueles hormônios que não são convertidos em DHT não precisam ter ação reduzida da 5?-redutase. Já os que sofrem essa conversão são normalmente usados em doses supra fisiológicas, podendo não ser suficiente o bloqueio enzimático esperado pelos tratamentos atualmente disponíveis.(4) 

Assim, o manejo da alopecia androgenética exacerbada pelo uso de esteroides anabolizantes começa com a interrupção do uso dessas substâncias. A prevenção através da educação é crucial, especialmente entre jovens e adultos que podem estar propensos a utilizar essas medicações para melhorias estéticas ou de performance, sem estar cientes dos riscos associados.

 

Conclusão

Como a alopecia androgenética está intimamente ligada ao perfil hormonal, a investigação meticulosa de hiperandrogenismo, com foco em uma anamnese detalhada e exames hormonais apropriados, é crucial para identificar causas subjacentes e direcionar o tratamento de forma eficaz. No contexto do uso de esteroides anabolizantes, é fundamental reconhecer o potencial agravamento da alopecia e a necessidade de cessação do uso dessas substâncias como medida inicial de tratamento. A educação sobre os riscos associados ao uso de esteroides anabolizantes, especialmente entre populações vulneráveis como jovens e adultos que buscam melhorias estéticas ou de performance, é de suma importância para prevenir o desenvolvimento e a progressão da alopecia androgenética. Assim, a colaboração entre diferentes especialistas médicos, como dermatologistas, cirurgiões plásticos e endocrinologistas, é vital para oferecer um tratamento multidisciplinar e integral aos pacientes afetados por essa condição.

 

Referências:

1. Lolli F, Pallotti F, Rossi A, Fortuna MC, Caro G, Lenzi A, et al. Androgenetic alopecia: a review. Endocrine. 2017;57(1):9-17.

2. Zouboulis CC, Degitz K. Androgen action on human skin -- from basic research to clinical significance. Exp Dermatol. 2004;13 Suppl 4:5-10.

3. Sharma A, Welt CK. Practical Approach to Hyperandrogenism in Women. Med Clin North Am. 2021;105(6):1099-116.

4. Bond P, Smit DL, de Ronde W. Anabolic-androgenic steroids: How do they work and what are the risks? Front Endocrinol (Lausanne). 2022;13:1059473.

 

5. Cunha TSC, N. S.; Moura, M. J. C. S.; Marcondes, F. K. Esteróides anabólicos androgênicos e sua relação com a prática desportiva. Revista Brasileira de Ciências Farmacêuticas. 2004;40(2).

 


English version

Androgen Hormones and Androgenetic Alopecia

Androgen Hormones and Androgenetic Alopecia

 

Dr. Octávio de Oliveira Santos Neto


Endocrinologist and Metabologist with training and specialization from the State University of Campinas (Unicamp)

Certified specialist from the Brazilian Society of Endocrinology and Metabology

Endocrinologist at the Gender Outpatient Clinic of the Unicamp Hospital das Clínicas

 

Androgenetic alopecia is closely related to androgen hormones, such as dehydroepiandrosterone (DHEA), dehydroepiandrosterone sulfate (SDHEA), androstenedione and testosterone. As these hormones are converted into dihydrotestosterone (DHT), they lead to an increase in the telogen phase of the hair cycle and a shorter duration of the anagen phase, leading to miniaturization of the hair, a decrease in hair density and potential atrophy of the hair follicles.(1, 2)

Therefore, it is essential to raise the suspicion of hyperandrogenism in people with alopecia, particularly in females. Women with signs and symptoms such as menstrual irregularity, amenorrhea, acne, hirsutism and voice changes should be investigated for excess androgen hormones.(3) 

 

Etiological investigation of hyperandrogenism

The etiological investigation of excess androgen hormones must include a detailed history and serum measurement of testosterone, SDHEA, DHEA, androstenedione and 17-OH progesterone. It is important that these tests are collected in the follicular phase of the ovarian cycle, in the days following the start of menstruation. The patient must also not be using combined contraceptives. In the event of laboratory changes, referral to an endocrinologist may be essential for diagnostic elucidation and appropriate treatment.(3)

Polycystic ovary syndrome (PCOS) is responsible for up to 80% of cases of hyperandrogenism, but it is a diagnosis of exclusion and other ovarian etiologies (e.g. ovarian tumor), and adrenal diseases (e.g. adrenal hyperplasia) must be investigated. congenital, adrenal tumors, Cushing's syndrome) and exogenous causes, including the use of anabolic steroids. In cases of clinical suspicion of Cushing's syndrome (presence of signs such as facial plethora, hump, centripetal obesity, violaceous striae, ecchymoses, proximal weakness, lack of blood pressure and/or glycemic control), the investigation is more complex and must rely on the assistance from an endocrinologist from the beginning.(3)

 

Use exogenous anabolic steroids

The use of anabolic steroids for aesthetic purposes is a growing practice that poses significant health risks, including the acceleration or worsening of androgenetic alopecia. Substances synthetically derived from testosterone are used, which differ in terms of androgenic potential and action on the hair follicle. Oxandrolone, nandrolone and stanozolol, for example, have anabolic potential much higher than androgenic, which leads to less harmful effects on the skin and hair. Furthermore, steroids such as boldenone, stanozolol, fluoxymesterone, methenolone, drostanolone, oxandrolone, oxymetholone, trenbolone, methandienone, nandrolone and turinabol do not undergo significant conversion of 5?-reductase into DHT, which is the hormone with the greatest damaging effect on alopecia. Therefore, the use of such derivatives ends up being less harmful to hair health than when salts such as cypionate, propionate and testosterone undecylate are used, which undergo significant conversion into DHT by 5?-reductase.(4, 5) 

It is questionable and we lack data in the literature on the benefits of 5?-reductase inhibitors in patients who use anabolic steroids for aesthetic purposes. One of the reasons is that those hormones that are not converted into DHT do not need to have reduced 5?-reductase action. Those that undergo this conversion are normally used in supraphysiological doses, and the enzymatic blockade expected by currently available treatments may not be sufficient.(4) 

Therefore, the management of androgenetic alopecia exacerbated using anabolic steroids begins with stopping the use of these substances. Prevention through education is crucial, especially among young people and adults who may be prone to using these medications for aesthetic or performance improvements, without being aware of the associated risks.

 

Conclusion

As androgenetic alopecia is closely linked to the hormonal profile, meticulous investigation of hyperandrogenism, focusing on a detailed history and appropriate hormonal tests, is crucial to identify underlying causes and direct treatment effectively. In the context of the use of anabolic steroids, it is essential to recognize the potential worsening of alopecia and the need to cease the use of these substances as an initial treatment measure. Education about the risks associated with the use of anabolic steroids, especially among vulnerable populations such as young people and adults seeking aesthetic or performance improvements, is of paramount importance to prevent the development and progression of androgenetic alopecia. Thus, collaboration between different medical specialists, such as dermatologists, plastic surgeons and endocrinologists, is vital to offer multidisciplinary and comprehensive treatment to patients affected by this condition.

 

References:

1. Lolli F, Pallotti F, Rossi A, Fortuna MC, Caro G, Lenzi A, et al. Androgenetic alopecia: a review. Endocrine. 2017;57(1):9-17.

2. Zouboulis CC, Degitz K. Androgen action on human skin -- from basic research to clinical significance. Exp Dermatol. 2004;13 Suppl 4:5-10.

3. Sharma A, Welt CK. Practical Approach to Hyperandrogenism in Women. Med Clin North Am. 2021;105(6):1099-116.

4. Bond P, Smit DL, de Ronde W. Anabolic-androgenic steroids: How do they work and what are the risks? Front Endocrinol (Lausanne). 2022;13:1059473.

5. Cunha TSC, N. S.; Moura, M. J. C. S.; Marcondes, F. K. Esteróides anabólicos androgênicos e sua relação com a prática desportiva. Revista Brasileira de Ciências Farmacêuticas. 2004;40(2).