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Artigos de O Folículo · 18 de agosto de 2023 · 12 min de leitura

Cirurgia de restauração capilar corretiva com uso das técnicas FUT e FUE em prévio transplante capilar mal sucedido: relato de caso

A alopecia androgenética (AAG) é o tipo mais comum de perda de cabelo progressiva, é considerada uma condição poligenética, com gravidade, idade de início e localização da queda de cabelo no couro cabeludo variáveis entre os indivíduos de ambos os sexos. 

Cirurgia de restauração capilar corretiva com uso das técnicas FUT e FUE em prévio transplante capilar mal sucedido: relato de caso 

Por Dr. Flavio Abboud e Dr. Ricardo Gomes de Lemos (in memoriam)

Introdução

A alopecia androgenética (AAG) é o tipo mais comum de perda de cabelo progressiva, é considerada uma condição poligenética, com gravidade, idade de início e localização da queda de cabelo no couro cabeludo variáveis entre os indivíduos de ambos os sexos. Geralmente os homens apresentam perda de cabelo envolvendo região temporal e vértex, caracterizando o padrão de “ferradura” (Lolli et al., 2017). A incidência e a prevalência da AAG dependem da idade e da etnia, contudo a literatura mostra que aproximadamente 30% dos homens caucasianos terão AAG aos 30 anos, até 50% aos 50 anos e 80% aos 70 anos (Hamilton, 1951; Severi et al., 2003; Rossi et al., 2016; Lolli et al., 2017; Katzer et al., 2019).

Além dos tratamentos clínicos disponíveis para retardar a progressão da AAG, existem indicações para restauração cirúrgica da calvície. As duas técnicas usualmente empregadas são; 1) Follicular Unit Transplantation (FUT), e 2) Follicular Unit extraction (FUE). O método como as unidades foliculares (UF) são transplantadas para a área receptora pode variar de acordo com a experiência do cirurgião e usualmente os instrumentos utilizados são implanters (afiados ou não), keep, pinças, agulhas, micro lâminas, etc. É importante destacar que o transplante capilar envolve um alto grau de precisão e uma equipe cirúrgica qualificada, além disso, de acordo com alguns autores, esse procedimento requer uma abordagem abstrata e artística para recriar um estilo que pareça natural (Collins & Avram, 2021). 

Em algumas situações, ambas as técnicas podem ser aplicadas, como por exemplo quando o paciente já foi submetido a mais de duas sessões de FUT e a partir desse momento, sua área doadora permite um melhor aproveitamento utilizando a técnica FUE. Este artigo apresenta um relato de caso, no qual foram realizadas duas cirurgias com ambas as técnicas citadas para correção de um prévio transplante capilar mal sucedido.

Relato de caso

Paciente T.C.R, 37 anos, sexo masculino, caucasiano. Em maio de 2020 foi atendido pelo Dr. Ricardo Gomes de Lemos na clínica Natural Hair, o qual diagnosticou alopecia androgenética (Classificação Norwood grau 6 em evolução para 7) (Figura 1). Paciente relatou ter sido submetido a transplante capilar (TC) (há aproximadamente 1 ano) em outro serviço, com a técnica FUE. Durante a consulta apresentou foto do pós-operatório imediato da referida cirurgia (Figura 2). Apresentava várias sequelas estéticas, as quais incluíam: linha anterior baixa e com desenho inestético, várias unidades foliculares agrupadas (tufos), além do posicionamento (ângulo e direcionamento) errôneo, tornando essa região grosseira e artificial. Paciente relatou isolamento social com forte abalo emocional após o procedimento. 

Devido à insatisfação do paciente, os autores realizaram planejamento cirúrgico para correção e restauração da área maltratada, o qual foi realizado em duas etapas. A primeira etapa compreendeu uma sessão utilizando-se a técnica FUT, com ênfase na zona anterior (realizada pelo Dr. Ricardo Lemos), na qual foram extraídas 2899 UFs. Na mesma cirurgia foi realizada a técnica FUE manual (realizada pelo Dr. Flávio Abboud) na área receptora com o intuito de extrair unidades foliculares indesejadas, realocando-as para regiões mais posteriores (Figura 3), nesse caso, foram extraídas 214 UFs com 2, 3 ou mais fios (com uso do punch 0,9 mm Cole Instruments® customizado). A realocação das UFs foi extremamente importante por algumas razões; 1) Paciente Jovem; 2) Área doadora finita; 3) Calvície avançada e em evolução. Caso o paciente tivesse optado pela epilação à Laser todos esses folículos seriam perdidos. A Figura 4 mostra o pós-operatório de um ano da primeira etapa. 

Após 1 ano, a segunda etapa do planejamento cirúrgico foi realizada (Figura 5). Assim, optou-se pela técnica FUE (realizada pelo Dr. Flávio Abboud), com a qual foram exploradas a área doadora do couro cabeludo e da barba. Nessa sessão, foram extraídas o total de 3489 UFs (sendo 2636 do couro cabeludo e 853 da barba), as quais foram transplantadas, priorizando novamente a zona anterior (para melhora do volume) e escalpe médio (Figura 6). A Figura 7 mostra a área doadora da barba onde foram extraídas as UF. Durante essa sessão, novamente foi realizada extração de UFs inestéticas na linha anterior, ainda remanescentes da primeira cirurgia (Figura 8). A Figura 9 mostra o pós-operatório de 1 ano da segunda etapa do planejamento (fotos do arquivo pessoal do paciente, pois o mesmo encontrava-se em tratamento de saúde no período e não pode comparecer à clínica).  

A pedido do Dr. Ricardo Lemos, pensando no 3º tempo cirúrgico que seria uma nova FUT, a região doadora, correspondente a uma faixa de 1 cm acima da cicatriz prévia da FUT, permaneceu intacta, como pode ser observado na Figura 10. Contudo, essa terceira etapa ainda não foi realizada devido questões de saúde do paciente, que aproximadamente após um ano da última cirurgia, evoluiu com um câncer de intestino. Atualmente está finalizando o tratamento para a doença, que tem sido bem sucedido, e pretende ser submetido a um novo TC, cujo planejamento terá prioridade na região do vértex.

 

Agradecimentos: 

“Agradeço ao Dr. Ricardo Lemos por todos os ensinamentos profissionais e pessoais que levarei por toda a vida.” 

Dr. Flavio Abboud 

Referências 
Hamilton JB. Patterned loss of hair in man; types and incidence. Ann N Y Acad Sci. 1951 Mar;53(3):708-28. doi: 10.1111/j.1749-6632.1951.tb31971.x. 

Severi G, Sinclair R, Hopper JL, English DR, McCredie MR, Boyle P, Giles GG. Androgenetic alopecia in men aged 40-69 years: prevalence and risk factors. Br J Dermatol. 2003 Dec;149(6):1207-13. doi: 10.1111/j.1365-2133.2003.05565.x.

Rossi A, Anzalone A, Fortuna MC, Caro G, Garelli V, Pranteda G, Carlesimo M. Multi-therapies in androgenetic alopecia: review and clinical experiences. Dermatol Ther. 2016 Nov;29(6):424-432. doi: 10.1111/dth.12390.

Lolli F, Pallotti F, Rossi A, Fortuna MC, Caro G, Lenzi A, Sansone A, Lombardo F. Androgenetic alopecia: a review. Endocrine. 2017 Jul;57(1):9-17. doi: 10.1007/s12020-017-1280-y. 

Katzer T, Leite Junior A, Beck R, da Silva C. Physiopathology and current treatments of androgenetic alopecia: Going beyond androgens and anti-androgens. Dermatol Ther. 2019 Sep;32(5):e13059. doi: 10.1111/dth.13059.

Collins K, Avram MR. Hair Transplantation and Follicular Unit Extraction. Dermatol Clin. 2021 Jul;39(3):463-478. doi: 10.1016/j.det.2021.04.003.

Figura 1: Pré-operatório da primeira etapa. Paciente apresentando Classificação de Norwood grau 6 em evolução para 7. Visão do topo, áreas receptora e doadora

Figura 2: Imagem do pós-operatório imediato referente ao transplante capilar prévio, mostrando o aspecto inestético obtido. Fonte: Arquivo pessoal do paciente

Figura 3: Extração das unidades foliculares (UFs) mal posicionadas, oriundas do transplante capilar mal sucedido. Todas as UFs foram realocadas em regiões posteriores

Figura 4: Pós-operatório de 1 ano após a primeira etapa, realizada com técnica FUT e FUE

Figura 5: Planejamento cirúrgico para a segunda etapa

Figura 6: Pós-operatório imediato da segunda etapa, realizada exclusivamente com a técnica FUE 

Figura 7: Pós-operatório imediato da área doadora da barba

Figura 8: Algumas Unidades foliculares mal posicionadas e ainda remanescentes na linha anterior foram extraídas e realocadas para regiões mais posteriores

Figura 9: Pós-operatório de 1 ano após a segunda etapa. Fonte: Arquivo pessoal do paciente

Figura 10: Mostra a faixa de aproximadamente 1 cm não explorada pela FUE (acima da cicatriz) para realização de uma possível nova FUT.


English version

Corrective hair restoration surgery using FUT and FUE techniques in a previous unsuccessful hair transplant: case report.

Corrective hair restoration surgery using FUT and FUE techniques in a previous unsuccessful hair transplant: case report. 

By Dr. Flavio Abboud and Dr. Ricardo Gomes de Lemos (in memoriam)

 

Introduction

Androgenetic alopecia (AAG) is the most common type of progressive hair loss, it is considered a polygenetic condition; severity, age, and location of hair loss on the scalp may vary among individuals of both sexes. Men have hair loss involving the temporal region and vertex, characterizing the “horseshoe” pattern (Lolli et al., 2017). The incidence and prevalence of AAG depend on age and ethnicity, however the literature shows that approximately 30% of Caucasian men will have AAG by age 30, up to 50% by age 50 and 80% by age 70 (Hamilton, 1951; Severi et al. al., 2003; Rossi et al., 2016; Lolli et al., 2017; Katzer et al., 2019).

In addition to the clinical treatments available to slow the progression of AAG, there are indications for surgical restoration of baldness. Follicular Unit Transplantation (FUT), and Follicular Unit Extraction (FUE) are the two techniques usually used. The method by which the follicular units (FU) are transplanted into the recipient area may vary according to the surgeon's experience and usually the instruments used are implanters (sharp or not), keep, tweezers, needles, microblades, etc. It is important to highlight that hair transplant involves high precision and a qualified surgical team; in addition, according to some authors, this procedure requires an abstract and artistic approach to recreate a style that looks natural (Collins & Avram, 2021). 

In some situations, both techniques can be applied, such as when the patient has already undergone more than two FUT sessions and from that moment on, his donor area allows better use with the FUE technique. This article presents a case report, in which two surgeries were performed with both techniques mentioned to correct a previous unsuccessful hair transplant.

 

Case report

Patient T.C.R, 37 years old, male, Caucasian. In May 2020, he was treated by Dr. Ricardo Gomes de Lemos at the Natural Hair clinic, who diagnosed androgenetic alopecia (Norwood classification grade 6 evolving to 7) (Figure 1). Patient reported having undergone hair transplant (HT) (approximately one year ago) in another service, with the FUE technique. During the visit, he presented a photo of the immediate postoperative period of the surgery (Figure 2). He had several aesthetic consequences, which included: a low anterior line with an unsightly design, several grouped follicular units (tufts), in addition to erroneous positioning (angle and direction), making this region coarse and artificial. Patient reported social isolation with strong emotional shock after the procedure. 

Due to the patient's dissatisfaction, the authors carried out a surgical planning for a two-staged correction and restoration of the mistreated area. The first stage comprised a FUT technique session, with emphasis on the anterior zone (performed by Dr. Ricardo Lemos), from which 2899 FUs were extracted. In the same surgery, the manual FUE technique was performed by Dr. Flávio Abboud in the receiving area in order to extract unwanted follicular units, relocating them to more posterior regions (Figure 3), in this case, 214 UFs were extracted with 2, 3 or more strands (using a 0.9 mm custom punch Cole Instruments®). The relocation of the FUs was extremely important for a few reasons; 1) Young Patient; 2) Finite donor area; 3) Advanced and evolving baldness. If the patient had opted for laser epilation, all these follicles would have been lost. Figure 4 shows the one-year postoperative period of the first stage. 

After one year, the second stage of surgical planning was performed (Figure 5). Thus, Dr. Flávio Abboud used the FUE technique and explored the donor area of ??the scalp and beard. In this session, a total of 3489 FUs were extracted (2636 from the scalp and 853 from the beard), which were transplanted, prioritizing the anterior zone, to improve volume, and the middle scalp (Figure 6). Figure 7 shows the donor area of ??the beard from which the FUs were extracted. During this session, unsightly UFs were again extracted from the anterior line, remaining from the first surgery (Figure 8). Figure 9 shows the one-year postoperative period of the second planning stage (photos from the patient's personal file, as he was undergoing health treatment during the period and could not attend the clinic).

At the request of Dr. Ricardo Lemos, thinking about the third surgical procedure that would be a new FUT, the donor region, corresponding to a strip of 1 cm above the previous FUT scar, remained intact, as can be seen in Figure 10. However, this third stage has not yet been conducted due to the patient's health issues, which, approximately one year after the last surgery, had a bowel cancer. He is currently finishing the treatment for the disease, which has been successful, and now he intends to undergo a new HT, whose planning will have priority in the vertex region.

 

Acknowledgements 

“I thank Dr. Ricardo Lemos for all the professional and personal teachings that I will take with me forever.” 

Dr. Flavio Abboud 

 

References 

Hamilton JB. Patterned loss of hair in man; types and incidence. Ann N Y Acad Sci. 1951 Mar;53(3):708-28. doi: 10.1111/j.1749-6632.1951.tb31971.x. 

Severi G, Sinclair R, Hopper JL, English DR, McCredie MR, Boyle P, Giles GG. Androgenetic alopecia in men aged 40-69 years: prevalence and risk factors. Br J Dermatol. 2003 Dec;149(6):1207-13. doi: 10.1111/j.1365-2133.2003.05565.x.

Rossi A, Anzalone A, Fortuna MC, Caro G, Garelli V, Pranteda G, Carlesimo M. Multi-therapies in androgenetic alopecia: review and clinical experiences. Dermatol Ther. 2016 Nov;29(6):424-432. doi: 10.1111/dth.12390.

Lolli F, Pallotti F, Rossi A, Fortuna MC, Caro G, Lenzi A, Sansone A, Lombardo F. Androgenetic alopecia: a review. Endocrine. 2017 Jul;57(1):9-17. doi: 10.1007/s12020-017-1280-y. 

Katzer T, Leite Junior A, Beck R, da Silva C. Physiopathology, and current treatments of androgenetic alopecia: Going beyond androgens and anti-androgens. Dermatol Ther. 2019 Sep;32(5):e13059. doi: 10.1111/dth.13059.

Collins K, Avram MR. Hair Transplantation and Follicular Unit Extraction. Dermatol Clin. 2021 Jul;39(3):463-478. doi: 10.1016/j.det.2021.04.003.

Figure 1: Preoperative period of the first stage. Patient presenting Norwood Classification grade 6 evolving to 7. Top view, recipient, and donor areas

Figure 2: Image of the immediate postoperative period referring to the previous hair transplant, showing the unsightly appearance obtained. Source: patient's personal file

Figure 3: Extraction of misplaced follicular units (FUs) resulting from unsuccessful hair transplant. All FUs have been relocated to posterior regions

Figure 4: One-year postoperative period after the first stage, performed with the FUT and FUE technique.

Figure 5: Surgical planning for the second stage

Figure 6: Immediate postoperative period of the second stage, performed exclusively with the FUE technique. 

Figure 7: Immediate postoperative period of the beard donor area

Figure 8: Some misplaced follicular units remaining in the anterior line were extracted and relocated to more posterior regions.

Figure 9: One-year postoperative period after the second stage. Source: patient's personal file

Figure 10: Strip of approximately 1 cm not explored by the FUE (above the scar) for performing a possible new FUT.